Conservas e plantas halófitas

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Salicornia numa salina da Ilha da Morraceira (Figueira da Foz)

As plantas halófitas possuem estratégias adaptativas que lhes permitem tolerar níveis de salinidade que a maioria das outras plantas não suporta. Estas comunidades são típicas de sapais e salinas, ocorrendo em todas as áreas estuarinas e lagunares do nosso litoral, formando diferentes comunidades e associações que, no caso dos sapais baixos, conseguem resistir à submersão diária pelo efeito das marés.

A flora halófita do nosso país é particularmente rica ocorrendo diferentes espécies dos géneros Salicornia, Sarcocronia, Atriplex, Limoniastrum e Arthrocnemum, entre outros.

Flora das salinas de castro marim

Comunidade de plantas halófitas numa salina de Castro Marim, com destaque para Limoniastrum monopetalum em flor

O facto de acumularem baixos teores de sal e em alguns casos terem folhas carnudas (Salicornia ramossisima e Sarcocornia sp.), conferem-lhes um interesse alimentar, reconhecido desde há muito em diversas tradições gastronómicas (França, Espanha, Itália, Eslovénia, Grécia). Em Portugal a sua utilização alimentar é relativamente recente e, infelizmente ainda algo marginal. Por esse motivo é de saudar a sua utilização pela indústria conserveira nacional, através de um primeiro caso com o atum da Naval com salicórnia e chícharos e mais recentemente com a Manná, na sua linha Equilibrium, pioneira na utilização da sacocórnia.

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Sarcocornia sp. na foz do rio Arade

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Filetes de atum com sarcocórnia da Manná

A utilização destas plantas, seja através da colheita directa na natureza, seja através do seu cultivo em terrenos salgados, improdutivos para outras plantas, pode ser um factor de valorização para essas áreas, sendo um recurso alimentar sustentável e saudável que pode ser consumido das mais variadas formas (em saladas, salteado, esparregado) e, claro está, em conserva.

 

 

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A propósito de Giestal…

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A hortênsia, Hydrangea macrophylla é para a maioria das pessoas a planta mais característica e típica da flora açoriana. Na verdade trata-se de uma espécie exótica originária do extremo Oriente cuja introdução parece ter ocorrido na Europa em meados do século XVIII… Quanto à giesta o nome designa várias espécies de género Cytisus e Spartium, cujas formações são designadas por giestais. Havendo algumas espécies representadas também no Açores, nomeadamente Spartim junceum.

No entanto a origem do nome Giestal para uma marca de conservas actualmente pertencente ao universo da Cofaco (Açores) encontra-se em… Lisboa, mais concretamente na Travessa do Giestal, em Alcântara, freguesia onde a actividade fabril foi preponderante logo a partir de meados do século XIX.

 

Entre o Alto de Santo Amaro e a Boa-Hora, a Travessa do Giestal, situa-se numa encosta de solos sedimentares e vulcânicos, situação apropriada à ocorrência da giesta-amarela Cytisus striatus, que continua a fazer parte do elenco florístico de muitos locais a norte de Lisboa e cuja expressiva presença no local estará certamente na origem do topónimo. Aqui veio a instalar-se uma fábrica de conservas (B J Borges Lda.), curiosamente praticamente em frente à fábrica de cerâmica de Sant’Anna.

A Giestal foi, conjuntamente com outras, uma das marcas aí produzidas. Um dos sócios desta firma era o influente e preponderante Alfredo Augusto de Almeida, vogal do Conselho Geral do Instituto Português das Conservas de Peixe, Presidente do Grémio dos Industriais de Conservas de Peixe do Centro (1940-1949), em cuja qualidade integrou a Câmara Corporativa. Tendo ainda sido parlamentar na II Legislatura (1938-1942) e na V Legislatura (1949-1953).

A B J Borges Lda. operou na Travessa do Giestal até aos finais da década de 50, tendo sido deslocalizada para o Faial (Arquipélago dos Açores), tendo mais tarde a marca Giestal transitado para o domínio da Cofaco.

Giestal

Bem Amanhado – Conservas de peixe do rio

Após a passagem das paisagens tranquilas da Cova da Beira, o Zêzere lança-se por meandros sinuosos, com passagens estreitas entre fragas. Os aluviões são defendidos das cheias por taludes de pedra perpendiculares ao curso do rio; pelas encostas os socalcos tentam ganhar algum solo arável, muitas vezes ocupado por olivais. Matos e pinhais cobrem grande parte de um território constituído por uma sucessão interminável de cabeços e serranias, rasgados pelo Zêzere e seus afluentes.

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O Zêzere nas imediações do Paul

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Leito do rio Zêzere

Nas aldeias as construções fizeram-se dos xistos das encostas e dos calhaus quartzíticos retirado do leito do rio – os conhos. Estes materiais são ligados por uma argamassa ocre que lhes confere uma fisionomia muito particular.

Janeiro de Cima é uma das aldeias deste território, muito marcado pela desertificação e abandono, mas onde recentemente se desenvolveu uma iniciativa inovadora e meritória, constituída pela utilização de algumas espécies piscícolas do Zêzere, em receitas de conservas requintadas, com uma excelente apresentação, levadas a cabo pela Bem Amanhado.

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Logo do Bem Amanhado

Embora a utilização de peixes de rio (no caso carpa) não seja absolutamente inédita em Portugal (Dietrich Lueck já o havia feito na Comur, mas sem grande continuidade), é de facto uma novidade em que todos os intervenientes têm a ganhar, seja a comunidade local (pescadores, participantes na preparação e embalamento), sejam as conservas portuguesas por mais uma referência inovadora, seja a própria conservação da fauna piscícola autóctone (a maioria das espécies utilizadas é de origem exótica, sendo a sua captura recomendada pelo ICNF como forma de proteger as espécies autóctones).

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Carpa grelhada da Bem Amanhado

Parabéns a Leonel Barata, Chef de cozinha e formador, nascido neste território e a ele intimamente ligado.

Brinquedos de lata

 

Nascidos em meados do século XIX os brinquedos de lata são por isso tão antigos quanto as conservas! Não deixando de ser curioso que existe um certo paralelo entre ambas, por via da evolução dos processos litográficos da estampagem das folhas metálicas empregues quer nas latas, quer nos brinquedos.

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Crocodilo da Lehmann; foto obtida em http://lehmanntoycollection.com/

Numa primeira fase, e numa escala verdadeiramente industrial, a Alemanha foi a principal produtora deste tipo de brinquedos. Ernest Paul Lehmann destacou-se particularmente entre os fabricantes alemães, tendo criado uma fábrica em 1881 que rapidamente se tornou uma referência mundial, pois em 1920 comercializava cerca de 100 modelos diferentes e empregava 800 trabalhadores. No entanto quer nos Estados Unidos quer no Japão existiram igualmente fábricas importantes.

 

Em Portugal, como em muitos outros países, o fabrico deste tipo de brinquedos fez-se maioritariamente ao nível de pequenas manufacturas ou artesãos que criavam também os seus próprios modelos destinados aos mercados locais. No nosso país destaca-se o caso de José Augusto Júnior que em 1928 cria uma pequena fábrica em Alfena, cujos brinquedos em determinados períodos, por dificuldades de obtenção de matéria-prima, reutilizavam sobras de chapa da… indústria conserveira!

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Balde de praia, possível fabrico português

 

A popularidade destes brinquedos continuou até ao advento da “era do plástico” (1960’s), sendo curioso notar que os EUA, no âmbito do chamado Plano Marshall, apoiaram a criação ou reconstrução de fábricas de brinquedos de lata na Alemanha e no Japão.

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Comboio e pista. Fabrico alemão pós-guerra, possivelmente no quadro do Plano Marshall (ref.ª made in US Zone Germany)

Em Portugal a fábrica de Alfena foi deslocada para Ermesinde e designada por “Pepe”, mantendo-se em actividade até aos nossos dias com a produção de brinquedos, agora para um mercado “vintage” e coleccionista, situação que se verifica também com outros fabricantes no mundo, nomeadamente na Índia.

A fascinante história do abre-latas

No princípio era, naturalmente, a lata; só que curiosamente o abre-latas apareceu, não imediatamente a seguir (como seria natural), mas mais de 50 anos depois!

O início do processo de preservação dos alimentos através da sua esterilização e embalamento em recipientes selados data ainda de finais do século XVIII. Numa primeira fase utilizou-se o vidro e o ferro, no caso deste último material a embalagem superava o peso do produto, recomendando os fabricantes que as mesmas fossem abertas com… martelo e formão!

Em contextos militares, onde inicialmente as conservas foram amplamente difundidas (em 1813 já eram utilizadas pela Marinha e Exército britânico), os militares recorriam às suas baionetas e facas de campanha como abre-latas.

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Um dos modelos patenteados em meados do século XIX

O instrumento com essa função e nome surge apenas em 1858, numa época em que as latas já eram construídas em ligas e materiais mais leves, através de Ezra Warner que o patenteou; tratava-se no entanto de uma ferramenta pouco prática e logo em 1866 outros inventores vieram a desenvolver diferentes instrumentos, incluindo um protótipo que utilizava lâminas circulares rotativas, que está na origem da maioria dos modelos que continuamos a utilizar, incluindo modelos eléctricos, sobretudo americanos, elementos de cozinhas bem equipadas, muito ao gosto consumista do “american way of life”.

E quanto às latas de conservas de peixe do formato rectangular que todos conhecemos? Bem para essas, além da possibilidade de utilização dos diferentes modelos de lâminas rotativas, os fabricantes passaram a incorporar nas próprias embalagens um modelo de abre-latas que possuía uma ranhura onde era possível inserir uma “badana” existente nas latas, obtendo-se a abertura através da rotação da chave e consequente enrolamento da folha do topo da lata. Podia ser um processo difícil que, segundo alguns, desmotivou os consumidores das conservas em alguns dos nossos mercados de exportação, contribuindo assim também para o declínio desta indústria que ocorreu nas décadas de 70 e 80.

Abre-latas modelo clássico com vários tamanhos

O modelo clássico de abertura de latas de conservas de peixe em vários tamanhos, normalmente fornecidos na própria embalagem, ou entregues ao cliente no acto da compra

Felizmente que a indústria veio posteriormente a adoptar o sistema de “abertura fácil”, cuja invenção e desenvolvimento para as bebidas em lata havia sido iniciada em meados dos anos 60.

Abre-latas com referência publicitária

Abre-latas com referência publicitária a fábrica de conservas francesa

Estojo alemão

Interessante estojo de piquenique de origem alemã que inclui chave para abertura de latas de conserva

Modelo de abre latas com colher

Abre-latas em duas peças  (chave de abertura e espátula para servir)

Actualmente as conservas de peixe utilizam este sistema de “abertura-fácil”, que por vezes se revela não assim tão fácil, porém agora ainda mais facilitado pelos abre-latas à venda na nossa banca, fabricados pela “Era Uma Vez – Fábulas dos Objectos que Falam”. Graças a eles a abertura fácil ainda ficou mais fácil!

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Os abre-latas em madeira (pinho e faia) produzidos pela “Era Uma Vez Fábulas dos Objectos que Falam”

Mais informação relativa a “Era Uma Vez – Fábulas dos Objectos que Falam”em:

https://eraumavezfabulas.wixsite.com/eraumavez/fabulas

Sobre a história dos abre-latas:

https://www.smithsonianmag.com/smart-news/why-can-opener-wasnt-invented-until-almost-50-years-after-can-180964590/

Nota: As imagens dos diferentes modelos foram obtidas em diversos sites de venda on-line

Sangacho de atum

Não imaginam a quantidade de definições e ideias erradas que temos ouvido acerca do sangacho de atum…

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Representação da morfologia de um peixe. O sangacho corresponde à área da linha lateral. Ilustração de Saint Justh e Robert Moyes, obtida em “Peixes”, série o Pequeno Guia da Livraria Bertrand, Lisboa 1965

Se há características gustativas que são subjectivas (é a parte mais saborosa do atum!), há no entanto características morfológicas e anatómicas indiscutíveis, pois na verdade o sangacho corresponde ao tecido muscular que acompanha a chamada linha lateral, formando não só nos atuns, mas também em muitos outros peixes, uma faixa escura que contrasta com os tecidos subjacentes. No caso dos atuns esse contraste é francamente notório, pois o sangacho tem uma cor castanho-escura, e os restantes tecidos uma cor vermelha.

O sangacho foi desde sempre a parte menos valorizada do atum, facto que se verifica também naturalmente nas conservas. No entanto não deixa de ter os seus apreciadores, sendo as conservas de sangacho de atum consideradas também como um “produto tradicional português”,  constante na listagem elaborada pela DGDR (Ministério da Agricultura) em 2001.

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Conserva de sangacho de atum da Corretora (S. Miguel, Açores)

 

Apontamento sobre o traje das varinas de Lisboa

Postal varina de Lisboa

Postal dos anos 50 (?) representando varina de Lisboa. Faz parte de uma série de postais de trajes e figuras regionais de Portugal

As varinas são, sem dúvida, um dos maiores ícones de Lisboa, fazendo parte integrante do imaginário da cidade. São figuras omnipresentes na cultura popular (e também na erudita), representadas na poesia, na letra de fados e canções, na pintura, na cerâmica, na literatura, na estatuária, no cinema e na fotografia…

O seu traje evoluiu naturalmente ao longo do tempo, a sua marca mais distintiva, relativamente ao trajar das outras mulheres do povo, e a que as varinas davam grande importância, era sem dúvida o avental e o lenço, particularmente o primeiro, que para as demais mulheres era uma mera protecção do seu vestuário num contexto do dia-a-dia de trabalho – doméstico ou fabril – para as varinas era uma peça essencial, uma marca identitária, usada não apenas no contexto de trabalho mas também nas ocasiões especiais. Claro que para cada situação existia o seu avental, e competiam entre elas procurando os mais garridos, vistosos e com trabalhos de bordados elaborados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O lenço ou cachené, de padrões geométricos ou florais , tinha também os seus preceitos de uso, sobretudo nos nós utilizados para o fixar, não deixando de ser curioso que esse aspecto é comum a diferentes mulheres de diferentes comunidades piscatórias, nomeadamente da Nazaré e litoral da região de Aveiro, talvez reflexo das diversas origens geográficas das varinas lisboetas.

 

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Um outro acessório, curiosamente comum noutros contextos regionais e profissionais, era a algibeira, colocada à cinta por debaixo do avental, destinada ao dinheiro, pois tinham de andar com uma quantidade de moedas suficientes para assegurar os trocos da venda do peixe.

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Nota: Os exemplos apresentados pertencem ao casal Ana e Hugo Ventura, filhos e netos de varinas e vendedores de peixe aqui no mercado de Campo de Ourique e a quem agradecemos a sua cedência.